segunda-feira, 24 de agosto de 2026
Manifestação cultural representativa do Nordeste, Repente tem como marcas a rima e o improviso sobre situações do cotidiano
A rima e o improviso são as marcas do Repente, manifestação popular que faz parte da identidade da região Nordeste. No diálogo poético, dois artistas se revezam cantando estrofes improvisadas sobre situações do dia a dia.
Devido a sua importância cultural e social, o bem imaterial foi registrado como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em novembro de 2021.
O reconhecimento valoriza o trabalho de cantadores, produtores e apreciadores dessa tradição, presente atualmente em diferentes regiões do país.
Com a conquista, o Repente passou a figurar no Livro de Registro das Formas de Expressão, no qual também estão a Roda de Capoeira e Choro. O título possibilita a adoção de ações e políticas públicas voltadas à salvaguarda da expressão cultural.
O pedido de registro foi apresentado ao Iphan em 2013 pela Associação dos Cantadores Repentistas e Escritores Populares do Distrito Federal (Acrespo). A partir daí, o Instituto iniciou o processo de pesquisa e documentação da manifestação.
O trabalho resultou em um dossiê técnico elaborado em parceria com a Universidade de Brasília (UnB). O estudo reuniu informações sobre a história, as características e a importância cultural do Repente.
Cantorias
As apresentações de repentistas costumam ser feitas em espaços como casas, feiras, praças públicas e grandes festivais. Nelas, dois poetas, acompanhados de violas, improvisam estrofes alternadas, a partir de temas sugeridos pelo público ou instigados por eles próprios. Cada cantador é desafiado a criar versos inéditos, que encantam pela rapidez do raciocínio e pela riqueza de conteúdo.
O Repente é composto por três elementos fundamentais: a métrica precisa dos versos, a qualidade das rimas e o sentido das mensagens transmitidas pelos poetas. A habilidade para o improviso, que surpreende os ouvintes pela espontaneidade, é considerada como um dom.
A expressão cultural mantém vínculos históricos com as narrativas orais e encontra-se em estreita relação com outras poéticas vocais, como a literatura de cordel.
História
Há registros da prática do Repente desde meados do século 19 em Pernambuco e na Paraíba. As mais antigas têm origem na Serra do Teixeira (PB). No início do século 20, a manifestação cultural contribuiu para a difusão do rádio na região. Na época, a maior parte dos repentistas tinha origem rural, vivendo no interior e cantando para plateias camponesas.
A partir da década de 1950, os cantadores passaram a residir nas cidades em busca de meios de divulgação de seu trabalho, entre eles o rádio e o correio.
Nos anos 1980 e 1990 vieram as gravações de discos e a realização de festivais. Com a evolução tecnológica, a internet se tornou mais uma ferramenta para divulgação de cantorias e eventos voltados ao Repente.
Plataforma
Com um acervo de mais de 2 mil itens, entre vídeos, documentos e fotos, a plataforma digital Bem Brasileiro, do Iphan, reúne os bens registrados como Patrimônio Cultural do Brasil ao longo dos últimos 25 anos.
O site reúne desde pedidos de registro e pareceres técnicos até ações de monitoramento e salvaguarda realizadas pelo Instituto. Também disponibiliza parte do acervo separando materiais por cada estado da federação.
Exposição da artista maranhense Marlene Barros é destaque na programação cultural do CCBB São Paulo
O Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo recebe a exposição Marlene Barros: Tecitura do Feminino, primeira mostra individual da artista maranhense na instituição. Com curadoria de Betânia Pinheiro, a exposição reúne 15 trabalhos produzidos em diferentes momentos da trajetória de Marlene Barros, entre esculturas, bordados, crochês, instalações e objetos, que transformam técnicas tradicionalmente associadas ao ambiente doméstico em linguagem artística para discutir questões relacionadas ao corpo feminino, à memória, ao cuidado e às estruturas históricas que invisibilizaram a produção das mulheres.
Com mais de quatro décadas de atuação, Marlene Barros construiu uma pesquisa artística que tem o universo feminino como eixo central de sua produção. Em suas obras, linha, tecido, bordado e crochê deixam de ocupar o lugar do fazer utilitário para se afirmarem como instrumentos de elaboração estética, crítica e política.
Inspirada em uma pesquisa iniciada durante seu mestrado em Arte Contemporânea na Universidade de Aveiro, em Portugal, a artista parte da ideia da costura como gesto de reparação simbólica. O projeto nasceu a partir da proposta de intervir em uma casa em ruínas localizada no campus da universidade, experiência que levou Marlene a estabelecer relações entre arquitetura, memória e corpo.
Na exposição, costurar torna-se um gesto de reconstrução, enquanto o entrelaçamento das linhas remete às relações familiares, aos afetos, às heranças culturais e às marcas deixadas pelo tempo. Ao mesmo tempo, a mostra evidencia como atividades historicamente desempenhadas por mulheres foram sistematicamente desvalorizadas e afastadas do reconhecimento institucional no campo das artes.
"Essa exposição nasceu de uma pesquisa muito íntima sobre a condição da mulher, os saberes transmitidos entre gerações, o trabalho invisibilizado, os afetos, as cicatrizes e as resistências que atravessam nossas vidas. Ver esse trabalho ganhar novos sentidos a partir do olhar de cada visitante foi um dos maiores presentes que eu poderia receber. Esse é, para mim, o verdadeiro sentido da arte." comenta Marlene Barros
Reunindo obras produzidas em diferentes períodos da trajetória da artista, Marlene Barros: tecitura do feminino apresenta um percurso que atravessa temas como maternidade, identidade, sexualidade, violência, pertencimento e memória. Sem seguir uma ordem cronológica, a mostra propõe um percurso livre, aproximando trabalhos que dialogam entre si por meio da materialidade dos tecidos, dos bordados e das esculturas.
Entre os destaques está "Eu tenho a tua cara", instalação composta por 49 rostos femininos que tensiona as relações entre identidade, alteridade e construção social do indivíduo. Em “Caixa Preta", fotografias, colagens, intervenções têxteis e escritos formam um autorretrato expandido, atravessado por memórias pessoais e afetivas.
Já “Coso porque está roto” utiliza um casaco bordado para estabelecer relações entre corpo, cura e reparação simbólica, enquanto “Entre nós" propõe uma imersão em peças confeccionadas em crochê que revisitam práticas tradicionalmente atribuídas às mulheres. Em “Quem pariu, que embale”, Marlene Barros questiona a naturalização do cuidado como responsabilidade exclusivamente feminina.
Durante o período expositivo, a programação educativa reúne atividades voltadas a públicos de diferentes idades, como visitas mediadas, oficinas, palestras e experiências de criação coletiva relacionadas aos processos de bordado, costura e crochê. As ações ampliam o diálogo com a exposição e convidam o público a experimentar essas técnicas como formas de expressão, elaboração da memória e compartilhamento de experiências.
"Iniciamos essa conversa em São Luís, ampliamos esse percurso em Belo Horizonte e agora esperamos que o público de São Paulo entre nessa ciranda para dar continuidade a esse diálogo. É uma conversa que não se encerra nas obras, mas se amplia nas experiências compartilhadas entre muitas pessoas. Espero que sigamos refletindo sobre o feminino como uma construção histórica, social e cultural, honrando as ancestrais que abriram os caminhos para que hoje possamos compartilhar experiências, memórias e narrativas de mulheres." comenta a curadora Betânia Pinheiro.
Para Gabriela Azevedo, gerente geral do CCBB São Paulo, “receber esta exposição, que transforma práticas têxteis em expressões poéticas e políticas, é reafirmar a diversidade das expressões femininas na arte brasileira. São esculturas, instalações, objetos que representam práticas e memórias historicamente marginalizadas e realizá-la no CCBB é fortalecer o compromisso com a escuta, a reflexão e ampliação de perspectivas sobre o feminino na contemporaneidade”.
SOBRE AS AÇÕES EDUCATIVAS
Para a exposição Tecitura do Feminino, o programa CCBB Educativo – Arte e Cultura preparou uma série de atividades gratuitas, para toda a família. O público poderá interagir com o Sensorial Estúdio “Tornar-se Pele”, criado como um símbolo de uma travessia por todas as peles que nos vestiram. A programação traz ainda duas ações cênico-musicais. Em Som em Cena: “Tear-te” o trabalho manual se transforma em ritmo, entendendo o gesto repetitivo como composição. Já no InsPIRAção: “COMfiar”, a equipe educativa enreda significados das obras com os visitantes passantes usando fios, nós e tramas.
Aos sábados e domingos, o projeto Tardes Brincantes traz atividades livres e com hora marcada para que, fio a fio, visitante a visitante, sejam tecidas as experiências. O público poderá participar da oficina Primeiro Brincar: “trAvessos”, que convida os pequenos a descobrir o avesso do corpo e adentrar nesses órgãos. Já na Oficininha: “Eu tenho sua máscara”, as crianças são convidadas a criar uma nova face para Cazumbá, personagem do Bumba Meu Boi da Baixada Maranhense.
Outra opção é a FaBrincando: “Tramas em Retalhos”, em que as crianças experimentam o bordado em diferentes suportes, como papel, pedra e madeira. Para os fãs de histórias e leituras, a contação Conto um Conto “De Ponto em Ponto’” traz uma seleção da tradição oral, enquanto o projeto “Que Livro é Esse?” terá como opções as obras Meninas podem ser tudo, Meninos podem ser tudo, O quintal das irmãs, A menina que bordava bilhetes, A tecelã dos sonhos e Este não é um livro de princesas.
Durante o período da exposição é possível conferir ainda a Oficina Integrada: Linha Em fusão, com senhas distribuídas 15 minutos antes de cada sessão. Esta prática de ateliê traz como inspiração a matéria-prima da artista Marlene Barros, ensinando aos participantes o ofício de fiar.
A programação ainda inclui visitas mediadas com a curadora Betânia Pinheiro, workshop sobre curadoria, mediação e acessibilidade, a oficina “Arpilleras de si”, conduzida pela própria artista, além de performances e práticas de ateliê abertas ao público. As atividades contemplam diferentes perfis, entre educadores, artistas, estudantes, produtores culturais e público em geral, criando espaços de troca, experimentação e reflexão a partir dos temas presentes na exposição.
SOBRE A ARTISTA
Natural de Bacurituba (MA), Marlene Barros é artista visual, pesquisadora e produtora cultural. Com mais de quarenta anos de trajetória, desenvolve trabalhos em escultura, crochê, pintura, performance, instalação e intervenção artística, tendo o universo feminino como principal eixo de investigação.
É coordenadora do Ateliê Marlene Barros e do Ponto de Cultura Coletivo ZBM, espaços dedicados à formação artística e ao fortalecimento da produção cultural maranhense. É bacharel em Desenho Industrial pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), especialista em Artes Visuais: Cultura e Criação pelo Senac e mestre em Arte Contemporânea pela Universidade de Aveiro, em Portugal.
SERVIÇO
Marlene Barros: Tecitura do Feminino
Período: 26 de agosto de 2026 a 25 de janeiro de 2027
Local: Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo
Endereço: Rua Álvares Penteado, 112 – Centro Histórico – São Paulo (SP)
Entrada gratuita
Ações Formativas
Visita mediada da exposição*
Data: 29 de agosto (sábado)
Horário: 10h
Com: Betânia Pinheiro, curadora
Público: público em geral
Workshop “Tecendo Experiências: Curadoria, Mediação e Acessibilidade”*
Data: 24 de outubro (sábado)
Horário: 15h às 17h30
Com: Betânia Pinheiro, curadora
Público: educadores, mediadores culturais, artistas, estudantes, produtores culturais e demais interessados
Horário: 15h às 17h30
Com: Betânia Pinheiro, curadora
Público: educadores, mediadores culturais, artistas, estudantes, produtores culturais e demais interessados
Oficina “Arpilleras de si"
Data: 12 a 15 de novembro
Horários: quinta e sexta, das 15h às 18h; sábado e domingo, das 10h às 13h
Com: Marlene Barros
Público: mulheres cis e trans, pessoas não binárias, artesãs e artistas maiores de 18 anos
Prática de ateliê
A partir de 04 de setembro
Datas: sextas, sábados e domingos
Horários: 12h30 às 14h e 18h30 às 20h
Público: público em geral
Data: 12 a 15 de novembro
Horários: quinta e sexta, das 15h às 18h; sábado e domingo, das 10h às 13h
Com: Marlene Barros
Público: mulheres cis e trans, pessoas não binárias, artesãs e artistas maiores de 18 anos
Prática de ateliê
A partir de 04 de setembro
Datas: sextas, sábados e domingos
Horários: 12h30 às 14h e 18h30 às 20h
Público: público em geral
Funcionamento
Aberto todos os dias, das 9h às 20h, exceto às terças-feiras.
Informações
Telefone: (11) 4297-0600
Informações
Telefone: (11) 4297-0600
sexta-feira, 21 de agosto de 2026
Fafá de Belém, o Musical estreia em São Luís com casa lotada, emoção e uma celebração grandiosa da cultura brasileira
Espetáculo que celebra os 50 anos de carreira de Fafá de Belém emocionou o público maranhense e abriu temporada com sucesso absoluto no Teatro Arthur Azevedo
A espera terminou em grande estilo. “Fafá de Belém, o Musical” estreou na quinta-feira, 20 de agosto, em São Luís, diante de uma casa completamente lotada, em uma noite marcada pela emoção, pela música e pela grandiosidade de uma produção que celebra cinco décadas de uma das trajetórias mais importantes da música brasileira.
Apresentado pelo Ministério da Cultura e pela Petrobras e realizado pela Charge Produções, o espetáculo chegou ao Teatro Arthur Azevedo trazendo para o palco uma história que vai muito além de uma biografia musical. É uma viagem pela memória, pela Amazônia, pela cultura popular, pela família, pela política, pela identidade e, principalmente, pela força de uma artista que transformou sua voz em símbolo da cultura brasileira.
Desde os primeiros momentos, o público foi envolvido pela beleza da montagem. Cenografia, iluminação, música, dança, interpretação e elementos da cultura amazônica se encontram em uma produção grandiosa, criando uma experiência visual e emocional que conquistou a plateia.
Um dos grandes momentos da noite foi a atuação de Lucinha Lins, que interpreta Fafá de Belém em sua fase mais madura. Aos 73 anos, a atriz empresta sua experiência e sensibilidade à personagem, dando vida a uma mulher de personalidade forte, intensa e profundamente conectada às suas raízes.
A história também apresenta diferentes fases da vida da cantora. Laura Saab e Clarah Passos interpretam Fafá na infância, enquanto Helga Nemetik e Lucinha Lins representam outras fases de sua trajetória, construindo no palco uma narrativa que atravessa décadas.
E, claro, a música ocupa um lugar especial nessa história. Canções como “Foi Assim”, “Amazônia”, “Bom Dia Belém”, “Coração do Agreste”, “Nuvens de Lágrimas” e “Vermelho” ajudam a conduzir o público por momentos marcantes da carreira da cantora e transformam o teatro em um grande encontro com a memória afetiva brasileira.
Mais do que contar a história de Fafá de Belém, o espetáculo celebra a própria Amazônia e sua importância para a identidade cultural do país. É uma homenagem às raízes, à diversidade, à música e às histórias que atravessam gerações.
A estreia em São Luís confirmou a força dessa produção. Casa lotada, aplausos, emoção e uma plateia entregue do início ao fim marcaram a primeira noite da temporada maranhense.
Mas a festa está apenas começando.
“Fafá de Belém, o Musical” segue em cartaz no Teatro Arthur Azevedo até o dia 30 de agosto, com novas oportunidades para o público maranhense viver essa experiência.
quinta-feira, 20 de agosto de 2026
Clarice Lispector: cartas revelam rede de afetos e obra da escritora desde a primeira correspondência
O ensaísta, escritor e professor Evando Nascimento abordará as correspondências de Clarice Lispector que aparecem no livro Todas as cartas, na quarta conferência do ciclo “Cartas na mesa” na terça-feira, 22 de setembro, às 16h. Evando falará sobre duas vertentes: a primeira se dedica à rede de afetos constituída ao longo da correspondência de Clarice Lispector em relação à família e às amizades, e também em questões profissionais.
A segunda, também em matéria de rede de afetos, falará sobre as relações entre a vida e a obra da escritora, desde a primeira carta preservada na década de 40 até os anos 70, quando morre. A ênfase recairá sobre as cartas trocadas com escritores como Lucio Cardoso, João Cabral de Melo Neto e Rubem Braga.
“A hipótese é que o correio entre a escritora e seus pares serve como um laboratório de reflexão sobre a literatura em geral e sobre sua obra em particular. Exatamente por isso, pretendo desenvolver a ideia de que as cartas de escritores/escritoras e artistas não têm apenas um destinatário específico, mas se destinam à posteridade. Ou seja, estão também endereçadas a nós leitores e leitoras do porvir”, explica Evando.
Com coordenação do Acadêmico Godofredo de Oliveira Neto, a conferência tem entrada franca e as inscrições podem ser feitas pelo link: https://www.even3.com.br/clarice-lispector-772556
A palestra também será transmitida pelo canal de Youtube da ABL: https://www.youtube.com/live/PORgWSWBopY?si=yiHc0JcP9qVMbHxD
Na próxima e última conferência do ciclo de setembro, o professor da USP e pesquisador Thiago Mio Salla falará sobre as correspondências de Graciliano Ramos.
Sobre Evando Nascimento
Evando Nascimento é ensaísta, escritor, professor universitário e artista visual. Autor do livro Clarice Lispector: uma literatura pensante (ed. Civilização Brasileira, 2012), e dos prefácios à edição especial de Perto do coração selvagem (2023) e da reedição de Todas as cartas (2025), ambos pela editora Rocco. Atualmente, conclui um novo livro sobre a autora, reunindo ensaios e conferências realizados nos últimos anos.
Fonte: ABL
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
Brasileiros se destacam em festivais internacionais de cinema
O Festival de Locarno, na Suíça, premiou o filme pernambucano “A Margem do Rio” com o Prêmio Especial do Júri, no último sábado (15/8). Dirigido por Matheus Farias e Enock Carvalho, o longa-metragem foi o único título brasileiro no festival.
“A Margem do Rio” conta a história de romance entre dois homens, Izaquiel, um auxiliar de serviços gerais, e Jeremias, um pescador. Ambientado em Recife e estrelado por Caique Copque e Ítalo Martins, o título conta ainda com Robério Diógenes, Carlos Francisco, Renna Costa, Enio Cavalcanti, Artia e Isis Broken no elenco.
Outros destaques brasileiros
Dois anos após o prêmio de Melhor Roteiro de “Ainda Estou Aqui” no Festival de Veneza, na Itália, o Brasil volta a ser reconhecido com a seleção do longa “Retorno a Buenos Aires”, de Marco Bechis. O 83º Festival Internacional de Cinema de Veneza será realizado entre os dias 2 e 12 de setembro.
A coprodução com a Itália conta a história de Mariano Guerra, interpretado por Adriano Giannini, que precisa retornar à capital argentina depois de 33 anos morando na Itália para ser testemunha no julgamento de militares que o sequestraram e torturaram durante a ditadura no país. No elenco, estão os brasileiros Paula Cohen e Eduardo Hoy.
Outro destaque é a coprodução Brasil, França e Portugal, “A professora de francês”, filme de Ricardo Alves Jr, que foi selecionado para a mostra competitiva Horizontes Latinos do Festival Internacional de Cinema de San Sebastián, na Espanha. O festival ocorre de 18 a 26 de setembro.
Filmado em Belo Horizonte (MG), o longa-metragem é estrelado por Grace Passô e Pedro Goifman e acompanha Graça, uma mulher que vive com a namorada francesa, Clara, e dá aulas particulares de francês. Ante um problema de saúde do pai, a professora volta a morar na casa onde cresceu e descobre que os vizinhos organizaram uma seita. Elisa Lucinda, Bárbara Cohen, Rômulo Braga, Eduardo Moreira e Italo Laureano também estrelam a produção.
segunda-feira, 17 de agosto de 2026
Roda de Capoeira: Patrimônio Cultural do Brasil une luta, dança e música
Uma das mais antigas manifestações culturais do Brasil, a Capoeira reúne dança, luta, música e tradição e pode ser entendida como esporte e arte. Presente em todos os estados brasileiros, a prática é marcada pela diversidade de estilos, pela transmissão de saberes entre gerações e pela valorização da cultura afro-brasileira.
Em 2008, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), vinculado ao Ministério da Cultura (MinC), reconheceu a Roda de Capoeira como Patrimônio Cultural do Brasil. Em 2014, a manifestação recebeu da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
O reconhecimento internacional reforça a importância da herança cultural afro-brasileira e dos conhecimentos associados à prática.
Além da Roda de Capoeira, outras expressões brasileiras já receberam o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Entre elas estão o Samba de Roda do Recôncavo Baiano, Arte Kusiwa - Pintura Corporal, Frevo e Círio de Nazaré (PA).
Círculo
Na Roda de Capoeira, os praticantes formam um círculo no centro do qual dois jogadores se enfrentam. Os movimentos exigem habilidade, coordenação e domínio corporal, enquanto os demais participantes cantam, batem palmas e tocam instrumentos de percussão.
O berimbau, o atabaque e o pandeiro conduzem o ritmo da roda. Ao som dos instrumentos, os jogadores improvisam, se desafiam e estabelecem um diálogo por meio da ginga e dos movimentos característicos da capoeira.
Na roda, o mestre exerce papel fundamental. Guardião dos conhecimentos da tradição, cabe a ele ensinar o repertório, preservar a coesão do grupo e orientar o cumprimento dos códigos e rituais da prática. Também costuma conduzir os cânticos e o ritmo do jogo.
Saberes
O aprendizado da Capoeira ocorre principalmente pela observação e pela prática. A roda é também um espaço de convivência, respeito e integração social.
É nesse ambiente que iniciantes são acolhidos nos batizados e que mestres e mestras são formados e reconhecidos por suas comunidades. Os conhecimentos, técnicas, músicas e tradições são transmitidos de geração em geração e, ao mesmo tempo, renovados pelas novas experiências.
A manifestação cultural também contribui para preservar a memória da resistência à opressão histórica e fortalecer os vínculos entre comunidades e grupos.
Com diferentes formas de expressão e estilos, a Capoeira segue como uma manifestação viva da cultura brasileira.
sábado, 15 de agosto de 2026
Por que colecionar livros? Antonio Carlos Secchin e João Almino falam sobre poesia e apego a obras raras
Em conversa sobre colecionismo, biblioteca e valor cultural dos livros e acervos, os Acadêmicos Antonio Carlos Secchin e João Almino falaram sobre o que motiva o colecionador a garimpar livros, o processo de acumular obras raras, a importância da conservação de livros e como eles são formas expressivas de uma sociedade. Eles também abordaram o apego a peças e o saber do compartilhar, como o ato de fazer o livro circular através de doações, empréstimos ou em bibliotecas particulares e públicas que abrigam acervos valiosos.
Foram esses os assuntos trazidos na última mesa com participação da ABL na FLIN. O tempo chuvoso não impediu o público de comparecer à Arena FLIN, que contou com um público de diversas faixas etárias , ávido pelo conhecimento e pela curiosidade de entender quais são os critérios comuns a um colecionador e o que é levado em consideração na escolha de uma obra para agregar à coleção.
“Eu estou num movimento de “despossuir” livros. Fui acumulando livros. Tenho um acervo com mais de 8.000 livros. Já fiz uma doação de 1.300 obras para uma biblioteca pública. Conforme as minhas mudanças de casa durante a vida, que já ultrapassam oito, eu ia me desfazendo. Além de cópias físicas, passei a ler também cópias digitais em Kindle e às vezes livros que não são impressos, que só existem em pdf. E passei a incorporar isso ao meu celular e ao meu computador também”, afirmou João Almino.
Antonio Carlos Secchin confessou certa resistência em relação à cultura do ebook. Para ele, falta ao ebook o livro raro, o exemplar único, os livros diferenciados.
O acadêmico disse que o livro físico fascina. “O leitor comum se interessa pelos textos e pelas imagens, enquanto o bibliófilo, como é o meu caso, se interessa pelo suporte físico dos textos e das imagens.” Ele elencou alguns elementos que marcam essa fronteira extensa entre a sensação de ler um livro físico e um digital, especialmente para o bibliófilo.
“É o aparato o livro: as ilustrações, as erratas, o prefácio, a capa, e até o material do papel. São informações que chamamos de “peritextuais”, aquelas que estão no perímetro do livro. Isso também é informação da obra.

A forma também conta.” Secchin disse que sempre teve um grande interesse em conhecer os autores marginalizados do cânone da literatura brasileira:
“Sou uma pessoa que gosto simultaneamente da literatura e dos livros. Como começar a conhecer os autores desconhecidos? “No campo da poesia, o cânone abrange os poetas mais clássicos Gonçalves Dias, Fagundes Varella, Casimiro de Abreu, entre outros…”
Um instrumento ideal para esse desbravar de chegar a esses autores que não são populares seriam as antologias, pelas quais o poeta cultiva enorme apreço.
Por conta do ebook todos os livros estão condenados à eternidade. Secchin lembra que, antigamente, os livros eram extintos por conta dos seus suportes físicos. O bibliófilo teria, então, essa função de ir contra a maré do desaparecimento total da obra.
Para Secchin, há dois tipos de bibliofilia: a intransitiva, que está relacionada à posse de algo exclusivo, que o outro não tem, o prazer que reside nesse impedimento, e a bibliofilia transitiva: aquela categoria de bibliófilos que ocupam um lugar de guardião de um tesouro que pertence a todos - e deve e merece ser compartilhado.
Como curiosidade e depois de muita pesquisa, Secchin disse que o primeiro a utilizar o verso livre no Brasil foi Guerra Duval, no livro “Palavras que o vento leva”.
João Almino trouxe a ideia das múltipas interpretações que podem variar até mesmo de forma individual, conforme a passagem do tempo, novas experiências e perspectivas. “O livro vai se modificando à medida que nós vamos mudando“.
"Na minha experiência, quando eu volto a marcações feitas em um livro, vejo que elas não são tão mais importantes assim. O livro tem essa capacidade de ser um ente vivo”, destacou.

Por que possuir livros? Por que colecionar?
O bibliotecário e arquivista Carlos Juvêncio, formado pela UFF, falou que o ato de colecionar livros abrange dois estilos de pessoas, com comportamentos bem distintos: os hereges que não fazem marcações em livros, e os que grifam os trechos que mais chamaram atenção no livro, que são os com os quais ele mais se identifica.
“O livro colecionado é como um item de desejo. O ato de colecionar é um ato de memória, conservação e de se colocar naquela obra, de alguma forma. O livro tem múltiplas significações. O colecionismo move a gente”, afirmou.
Segundo o bibliotecário, a coleção só faz sentido para o colecionador e esse talvez seja o seu grande demérito.
“Quando a coleção é incorporada à outra ela pessoa ganha ressignificados”.
O arquivista também lembrou a importância de se ter políticas públicas sólidas e constantes para desenvolver as bibliotecas, que são esse espaço de troca de saberes, de arquivos preciosos, e de livros que precisam de um cuidado de conservação para que continuem em circulação.
Fo nte: ABL
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