Em conversa sobre colecionismo, biblioteca e valor cultural dos livros e acervos, os Acadêmicos Antonio Carlos Secchin e João Almino falaram sobre o que motiva o colecionador a garimpar livros, o processo de acumular obras raras, a importância da conservação de livros e como eles são formas expressivas de uma sociedade. Eles também abordaram o apego a peças e o saber do compartilhar, como o ato de fazer o livro circular através de doações, empréstimos ou em bibliotecas particulares e públicas que abrigam acervos valiosos.
Foram esses os assuntos trazidos na última mesa com participação da ABL na FLIN. O tempo chuvoso não impediu o público de comparecer à Arena FLIN, que contou com um público de diversas faixas etárias , ávido pelo conhecimento e pela curiosidade de entender quais são os critérios comuns a um colecionador e o que é levado em consideração na escolha de uma obra para agregar à coleção.
“Eu estou num movimento de “despossuir” livros. Fui acumulando livros. Tenho um acervo com mais de 8.000 livros. Já fiz uma doação de 1.300 obras para uma biblioteca pública. Conforme as minhas mudanças de casa durante a vida, que já ultrapassam oito, eu ia me desfazendo. Além de cópias físicas, passei a ler também cópias digitais em Kindle e às vezes livros que não são impressos, que só existem em pdf. E passei a incorporar isso ao meu celular e ao meu computador também”, afirmou João Almino.
Antonio Carlos Secchin confessou certa resistência em relação à cultura do ebook. Para ele, falta ao ebook o livro raro, o exemplar único, os livros diferenciados.
O acadêmico disse que o livro físico fascina. “O leitor comum se interessa pelos textos e pelas imagens, enquanto o bibliófilo, como é o meu caso, se interessa pelo suporte físico dos textos e das imagens.” Ele elencou alguns elementos que marcam essa fronteira extensa entre a sensação de ler um livro físico e um digital, especialmente para o bibliófilo.
“É o aparato o livro: as ilustrações, as erratas, o prefácio, a capa, e até o material do papel. São informações que chamamos de “peritextuais”, aquelas que estão no perímetro do livro. Isso também é informação da obra.

A forma também conta.” Secchin disse que sempre teve um grande interesse em conhecer os autores marginalizados do cânone da literatura brasileira:
“Sou uma pessoa que gosto simultaneamente da literatura e dos livros. Como começar a conhecer os autores desconhecidos? “No campo da poesia, o cânone abrange os poetas mais clássicos Gonçalves Dias, Fagundes Varella, Casimiro de Abreu, entre outros…”
Um instrumento ideal para esse desbravar de chegar a esses autores que não são populares seriam as antologias, pelas quais o poeta cultiva enorme apreço.
Por conta do ebook todos os livros estão condenados à eternidade. Secchin lembra que, antigamente, os livros eram extintos por conta dos seus suportes físicos. O bibliófilo teria, então, essa função de ir contra a maré do desaparecimento total da obra.
Para Secchin, há dois tipos de bibliofilia: a intransitiva, que está relacionada à posse de algo exclusivo, que o outro não tem, o prazer que reside nesse impedimento, e a bibliofilia transitiva: aquela categoria de bibliófilos que ocupam um lugar de guardião de um tesouro que pertence a todos - e deve e merece ser compartilhado.
Como curiosidade e depois de muita pesquisa, Secchin disse que o primeiro a utilizar o verso livre no Brasil foi Guerra Duval, no livro “Palavras que o vento leva”.
João Almino trouxe a ideia das múltipas interpretações que podem variar até mesmo de forma individual, conforme a passagem do tempo, novas experiências e perspectivas. “O livro vai se modificando à medida que nós vamos mudando“.
"Na minha experiência, quando eu volto a marcações feitas em um livro, vejo que elas não são tão mais importantes assim. O livro tem essa capacidade de ser um ente vivo”, destacou.

Por que possuir livros? Por que colecionar?
O bibliotecário e arquivista Carlos Juvêncio, formado pela UFF, falou que o ato de colecionar livros abrange dois estilos de pessoas, com comportamentos bem distintos: os hereges que não fazem marcações em livros, e os que grifam os trechos que mais chamaram atenção no livro, que são os com os quais ele mais se identifica.
“O livro colecionado é como um item de desejo. O ato de colecionar é um ato de memória, conservação e de se colocar naquela obra, de alguma forma. O livro tem múltiplas significações. O colecionismo move a gente”, afirmou.
Segundo o bibliotecário, a coleção só faz sentido para o colecionador e esse talvez seja o seu grande demérito.
“Quando a coleção é incorporada à outra ela pessoa ganha ressignificados”.
O arquivista também lembrou a importância de se ter políticas públicas sólidas e constantes para desenvolver as bibliotecas, que são esse espaço de troca de saberes, de arquivos preciosos, e de livros que precisam de um cuidado de conservação para que continuem em circulação.
Fo nte: ABL











