sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Projeto viabilizado pela Lei Rouanet estimula leitura e preservação dos saberes originários no extremo norte do país


 Com o objetivo de valorizar e fortalecer o vínculo entre a educação, a ancestralidade e a cultura indígena, um empreendimento social dedicado a projetos educacionais e culturais em territórios isolados e de difícil acesso do Brasil leva livros e ações formativas para o extremo norte do país. A iniciativa do Instituto Omunga, viabilizada pela Lei Rouanet, beneficia a população do município de Uiramutã (RR) com obras e atividades formativas e literárias que focam no registro das memórias e da história ancestral da cidade, na qual 95% dos habitantes pertencem aos povos indígenas Macuxi, Ingaricó e Patamona. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Uiramutã é a cidade com a maior proporção de pessoas indígenas do Brasil.

O projeto Omunga no Monte Roraima surgiu de demandas identificadas durante expedições de escuta realizadas pela equipe do empreendimento social. A comunidade local manifestou a necessidade de registrar as memórias ancestrais, baseadas na oralidade e transmitidas por gerações. Com o falecimento dos anciãos e a migração de jovens, tradições e saberes tradicionais da região roraimense enfrentam risco de desaparecimento.

“A partir dessa demanda, o projeto foi desenhado com foco no registro de memórias, transformando professores e alunos em autores e guardiões de suas próprias histórias”, relata Roberto Pascoal, empreendedor social, fundador e presidente-executivo da Omunga. Por meio da Lei Rouanet, o Ministério da Cultura (MinC) autorizou a captação de R$ 2,34 milhões para a viabilização do projeto em Roraima. Até o momento, mais de R$ 1,25 milhão foi captado.

Após a fase de escuta e desenvolvimento, o projeto atuará em quatro eixos principais: formação de professores com distribuição de livros, produção de um documentário sobre a cultura local, publicação de um livro com registros da comunidade e oferta de um curso online sobre educação indígena para docentes brasileiros.

De acordo com Pascoal, todos os livros distribuídos passam por uma curadoria cuidadosa, com prioridade para autores indígenas da região amazônica.

Na etapa de formação presencial para professores, realizada no próprio território, as atividades incluem oficinas de mediação de leitura, gêneros literários, mapeamento do acervo cultural, registro de memórias e a relação com o meio ambiente. “Neste contexto, o foco é o fortalecimento do professor. A meta é que o educador se reconheça como agente cultural e comunitário, capaz de mobilizar a memória e a identidade local como ferramentas de transformação social. As ações são conduzidas no próprio território, respeitando a cultura e a realidade das comunidades”, destaca Pascoal.

Foto: Daniel Machado/OMUNGA

Com a ação em Uiramutã, já foi possível registrar a receita tradicional do caxiri (bebida fermentada tradicionalmente consumida por povos indígenas da Amazônia), a história do Rio Ailã e as memórias do Tuxaua Orlando, importante liderança indígena Macuxi da região. Atualmente, a equipe da Omunga segue em expedição no território roraimense. A ação tem como metas fortalecer as práticas pedagógicas de educadores da rede municipal de Uiramutã, instrumentalizá-los para o registro de memórias locais por meio de textos e ilustrações, e distribuir 2.850 livros infantis nas escolas da região.

Segundo Roberto Pascoal, por meio da escrita, ilustração e da escuta intergeracional, a cidade tem passado por uma transformação marcada pela reconstrução e pelo fortalecimento de laços, pela preservação de memórias e pela reafirmação da identidade cultural com orgulho e pertencimento.

Apesar do projeto nortista em andamento, a Omunga, que possui 12 anos de existência, mantém outras quatro iniciativas e está elaborando o sexto projeto, que focará no povo indígena Ashaninka, comunidade originária que habita a região de fronteira entre o Brasil e o Peru, principalmente no estado do Acre.

Com as iniciativas territoriais, as ações do instituto já beneficiaram aproximadamente 1.323 professores e 16.845 crianças em seus diversos projetos, que incluem o “Escolas do Sertão”, “Livros para a África”, “Omunga na Amazônia”, “Omunga no Monte Roraima” e “Omunga na Amazônia Ilha do Marajó”. Ao todo, foram doados 18.457 livros e realizadas 480 horas de atividades educativo-culturais.

“A Lei Rouanet se torna determinante para viabilizar projetos em locais tão remotos”, explica Pascoal. “A causa, somada ao benefício fiscal oferecido pela lei, cria um elo possível entre grandes empresas e territórios invisíveis. Sem os recursos captados via incentivo fiscal, projetos como este não seriam realizados”. Com quatro projetos aprovados na Lei Rouanet, a Omunga já captou mais de R$ 3,34 milhões por meio de renúncia fiscal.

Entretanto, realizar atividades em regiões remotas e de difícil acesso representa desafios logísticos e de preparação significativos. Os materiais, especialmente os livros, partem da sede da organização em Joinville (SC) e percorrem trajetos que envolvem aviões comerciais, aeronaves de pequeno porte, barcos, caminhonetes e, em alguns casos, transporte animal.

Resultados

O professor Diego Abraão Damásio, da etnia Ingarikó, afirmou que o projeto fortalece a memória indígena. “É importante porque ele fortalece os saberes indígenas e leva nossa memória e nossa cultura para o futuro”, declarou. Abraão explicou que o objetivo é registrar a história no papel para que permaneça viva para as próximas gerações.

A docente Lidiane Tukuipa criticou a forma como não-indígenas registraram, por décadas, a história de seu povo. Ela relatou que muitos visitaram o território para perguntar sobre sua cultura e modo de vida, mas depois descreviam com uma visão externa, frequentemente de maneira equivocada. Ao tornar a população indígena responsável por contar suas histórias, Lidiane afirmou que a iniciativa a fez enxergar seu povo, território e história com profundidade. “Por isso, tive tanta vontade de escrever e registrar nossas memórias. Agora, sou professora e escritora!”, comemorou.

Foto: Daniel Machado/OMUNGA

Entre a população impactada, está também Ana Karla Modesto, adolescente do sertão do Piauí que participou do projeto Escolas do Sertão. Indicada pela Omunga para um concurso de escrita infantil, Ana Karla venceu e lançou seu primeiro livro em São Paulo.

Em Atalaia do Norte (AM), município que sediou o projeto Omunga na Amazônia, a jovem Luísa descobriu a vocação para se tornar juíza após contato com os livros distribuídos. Outro caso é o de Miriam, mãe de alunos atendidos pelas ações do instituto, também em Atalaia do Norte. Ela, que era analfabeta, aprendeu a ler com os livros infantis que o filho levava para casa.

“Todas as histórias foram marcantes. A forma como cada oficina foi conduzida nos trouxe clareza, amplitude de pensamento e uma volta no tempo em menção à história e memória dos nossos ancestrais. Atravessar rios, mares, voar e adentrar numa cultura tão quente como a nossa requer coragem, mas também reafirma a riqueza que existe em cada um de nós”, declarou o professor Rogério Alberto, da etnia Patamona.

Os casos citados fazem parte de uma estimativa de 45 mil pessoas impactadas, direta ou indiretamente, pelas ações da entidade.

Com a experiência, o empreendimento social reposicionou sua estratégia de atuação, concentrando-se no aprofundamento das ações em vez da amplitude territorial. O objetivo é manter três projetos simultâneos e gerar “impacto macro em regiões micro”, conforme define o fundador do instituto. “A Omunga busca aprofundar a transformação em cada território onde está presente, honrando o sentido de chegar mais longe em quilômetros e mais fundo em humanidade”, concluiu Pascoal.

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