terça-feira, 18 de abril de 2017

O que a recusa da visita do Papa Francisco significa para o governo decrépito de Temer

Michel Temer: Constrangimento
A recusa formal de visita ao Brasil feita pela Papa Francisco é mais um capítulo triste para a diplomacia brasileira - nada demais, comparada à incompetência de José Serra à frente da pasta, mas o suficiente para provocar reflexão.
Segundo o repórter Gerson Camarotti, o líder da Igreja Católica escreveu diretamente a Michel Temer para informá-lo que não poderia comparecer às comemorações dos 300 anos da aparição de Nossa Senhora Aparecida. O motivo: a “intensa agenda” do Papa. Seria algo perfeitamente normal, não fosse as críticas que acompanharam a resposta.
“Sei bem que a crise que o país enfrenta não é de simples solução, uma vez que tem raízes sócio-político-econômicas e não corresponde à Igreja dar uma receita concreta para algo tão complexo. Porém não posso deixar de pensar em tantas pessoas, sobretudo nos mais pobres, que muitas vezes se veem completamente abandonados e costumam ser aqueles que pagam o preço mais amargo e dilacerante de algumas soluções fáceis e superficiais para crises que vão muito além da esfera meramente financeira."
Para bom entendedor, meia palavra basta, especialmente na comunicação diplomática. Qual seria interesse do Papa Francisco em incluir um sermão desses em uma carta direta a Temer, reconhecido justamente por seus ataques às proteções sociais? Em contraste, o sumo pontífice enviou em 2016 uma carta igualmente significativa a Dilma Rousseff, apoiando-a em sua luta contra o golpe. Um mês depois, em setembro, ele aproveitaria uma de suas homilias para descrever o “momento triste” que vivia o Brasil.
Evidentemente, não seria sensato nem oportuno para outro chefe de Estado intervir abertamente nos processos políticos brasileiros, mas Francisco aproveitou esses momentos para fazer o contrário: distanciar-se ao máximo do grupo que assaltou Brasília desde o impeachment. E assim tem sido com quase todos os parceiros estratégicos do Brasil, em especial o bloco BRICS e nossos vizinhos sul-americanos - alguns, mais enfáticos, denunciando abertamente o golpe de Estado que se perpetuou em agosto, e outros mais discretos, meramente excluindo o Brasil de seus projetos geopolíticos.
Alguém, afinal, ouviu falar do Banco BRICS desde que o Temer assumiu? Pois é. Ele continua existindo, com ou sem a nossa presença. O mesmo vale para nosso projeto de integrar o Conselho de Segurança da ONU, ou as parcerias aero-espaciais na Base de Alcântara.
Não é que o mundo esteja cego ao que acontece no Brasil. Muito pelo contrário, aliás, o New York Times sumariza a impressão internacional: “No Brasil, o fim do mundo já chegou”. Mesmo entre os aliados neoliberais, isso parece inquestionável, dado o silêncio culpado que fazem diante do austericídio de Michel Temer. A vergonha causada pelo golpe cria uma ojeriza mesmo entre eles, que agora nos mantêm a um braço de distância.
Imagine então o Papa Francisco, cujo próprio nome remete ao combate à pobreza. Uma visita oficial, mesmo que em respeito à tradição religiosa, criaria um choque ideológico irreconciliável. O líder religioso mais progressista da Igreja Católica teria o que para conversar com um chefe de um golpe ultra-liberal? O clima? A decoração do Planalto?
Melhor esperar pelo próximo presidente - preferencialmente, alguém eleito.
Por Renato Bazan - Portal CTB

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